segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Quando Bowie fala pela gente

Nestas tristes horas em que ainda estamos surpreendidos pela morte de David Bowie, muitos fãs (eu entre eles) lembram de momentos em que ele falou pela gente ou nos falou quando precisávamos de uma pausa para respirar ou para expressar uma sensação (seja ela qual for). Momentos em que uma música, um vídeo, uma frase significaram mais do que conseguiríamos dizer na sessão de terapia.



Reúno alguns desses momentos, sabendo que não vão bater com o de diversos fãs. Cada um tem seu motivo, afinal. Reconheço também que num dia como hoje o mundo vai escrever sobre Bowie. Este meu texto, portanto, seria um grãozinho de areia ínfimo e desprezível até, em certo sentido.

Mas eu sinto necessidade de escrever. Sorry, people.

1. Space Oddity - "Ground control to major Tom". Essa frase ficou marcada na infância dos meus filhotes. Ouvia muito essa canção em casa (acho que estava numa fase de retorno a Bowie). E quando os dois iam para a escola conduzidos por uma das tias essa era uma das músicas que tocava sempre no som. Provavelmente é a primeira música que eles conheceram do Bowie. Creio que é a música do Bowie que mais toquei na vida. Várias vezes fiquei intrigada com a letra, tentando entendê-la sob um outro ângulo (Bowie ficara fascinado pela corrida espacial). Major Tom estava tão maravilhado pelo que estava vivendo que praticamente abdica da vida. "I'm stepping through the door and I'm floating in the most peculiar way and the stars look very different today". E depois tem essa parte: "Tell my wife I love her very much, she knows". E adeus, Major Tom. Não é intrigante? Ele ama a mulher, mas não dá. Aquilo é mais forte do que tudo. É uma música para a gente se largar no espaço. Para esquecer todo o resto.



2. Absolute Beginners - esta canção faz parte de um filme. É dos anos 80, década em que me formei musicalmente. Quer dizer, já ouvia muita música antes. Mas foi nesse período em que estudei mais, em que li, em que procurei aprender. Antes, era mais uma absorção por osmose de um monte de coisa que chegava até meus ouvidos. O filme é de 1986. Logo de cara curti a música homônima. O longa não me entusiasmou tanto assim. Tempos depois, fiquei com a letra na cabeça. Porque ela fazia muito sentido numa certa fase da vida, apesar de eu já não ser novata na estrada. O que aconteceu é que a tal love song não sobreviveu à montanha. Aprendi que estou sempre aprendendo. Sou beginner.


If our love song
Could fly over mountains
Could laugh at the ocean
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true



4. Where Are We Now - vou nessa já que a pegada está sentimental (give me a break. A notícia da morte dele nos chegou hoje). Quando ouvi essa canção do penúltimo álbum dele, chorei. Achei uma melodia triste, forte. E a letra também me fez verter mais lágrimas. Escrevi um post a respeito na ocasião. Às vezes me pego pensando nessa música (no tal post tem a letra). Porque tem horas que dá vontade de desistir (de algo). Dá desânimo. Porém você tenta lembrar de que existem coisas que conseguem te resgatar. Enquanto houver sol. Enquanto houver chuva. Enquanto houver fogo. Enquanto eu existir. Enquanto existir você.




3. As The World Falls Down - música da minha juventude, do filme Labirinto (1986). Quando era adolescente achava que assim poderia acontecer o amor. Você girando por um ambiente, tentando entender quem é aquela pessoa que te cativa. E aquela pessoa que te cativa te observando. É romântico, eu sei. Mas eu era uma principiante na vida. Quando vi a cena com Jennifer Connelly, uma menina quase da minha idade (pelo menos no filme), no baile de máscaras, imaginava se existiria um homem como David Bowie. Achava que não.



4. Under Pressure - você está sob pressão e lembra desta canção. Quer dizer, eu lembro. Lembro também quando falam de grandes vozes. Grandes nomes da música. Mais uma vez, esta escolha se liga à década de 80. Tenho apreço já por esse fato. Mas é um pedido para cedermos menos ao estilo de vida que nós nos impomos e que nos acelera e nos torna surdos para uma série de coisas. Só por ter Freddie Mercury e David Bowie este hit entra para um status diferente no panteão das melhores músicas.

Because love's such an old fashioned word
And love dares you to care for
The people on the edge of the night
And loves dares you to change our way of
Caring about ourselves
This is our last dance
This is our last dance
This is ourselves
Under pressure
Under pressure
Pressure



5 - Wake Up - escolhi uma música do Arcade Fire, que já adorava. Mas quando vi um vídeo da banda canadense com o Bowie, aí casou total. Essa música me dá vontade de ir para o alto de um morro, olhar o horizonte e simplesmente ficar quieta. De preferência com meus monstros do lado (uma referência ao filme Onde Vivem Os Monstros, do Spike Jonze, em que essa música embala uma cena assim). É que, confesso, às vezes não sou fácil. Bem, sou de fácil convívio social. Sou gentil. Mas tem hora que eu só quero ficar no meu mundo particular. Aí, não tem jeito. Não quero sair. Não quero falar. Não quero nada, exceto esse mundo. Fico alheia e não permito a entrada de outras pessoas nesse meu planeta exclusivo. Estamos lá eu e meus pensamentos escapistas. Quando vi que Bowie gostava bastante dessa música (tanto que procurou a banda para tocarem juntos), fiquei feliz. Sintonia.


Somethin’ filled up
my heart with nothin’.
Someone told me not to cry.


But now that I’m older,
my heart’s colder,
and I can see that it’s a lie.


6 - The Loneliest Guy - considero Wake Up pra cima, de certo modo. Poderia colocar outras tantas canções "pra cima". Tem as dançantes (Modern Love, China Girl, Let's Dance). Tem as clássicas, como Life On Mars, Rebel, Rebel, Five Years, Ziggy Stardust, Ashes to Ashes, Heroes, Sound And Vision, The Man Who Sold The World. Tem as mais recentes. Tem as últimas (Blackstar é uma porrada - passei o domingo ouvindo o álbum inteiro. E eu nem desconfiava que seria o último dia de vida do David Bowie). Mas acho que vou de The Loneliest Guy da turnê The Reality Tour. É um disco tão bom. Quer dizer, eu curti tanto... Teria amado ver essa turnê. Além disso, essa música me fez pensar muito também - no período em que comprei o álbum do show eu estava muito isolada do mundo. Para este post, escolhi um vídeo que, de quebra, vem com I'm Afraid of Americans.

All the pages that have turned
All the errors left unlearned, oh
Well I'm the luckiest guy
Not the loneliest guy
In the world
Not me




7 - Forbidden Colours - não é exatamente David Bowie. Mas tem tudo a ver. Vi "Furyo, Em Nome da Honra" (1983) também adolescente. O título original é "Merry Christmas, Mr. Lawrence". Deve ter sido uma das primeiras vezes - ou talvez a primeira - em que vi o amor por alguém do mesmo sexo. Foi num filme, não na vida real, é verdade. Mas marcou demais pra mim. E a música do Ryuichi Sakamoto é fenomenal. A canção fala por mim pelo tema do amor proibido. A beleza das notas e da cena em que Bowie beija Sakamoto foi o suficiente pra mim na época. Hum, de novo o romantismo da adolescência. Convenhamos, porém, que forte é isso de sentir algo por alguém e, ao mesmo tempo, tentar sufocar a emoção de todo jeito.


Esta lista não tem nada de especial, de fato. Foi só uma relação de músicas e vídeos que vieram à mente. Não tem a pretensão de fazer crítica musical. Ou de apontar os elementos inovadores do trabalho de Bowie. Que cada um faça sua escolha de música, pelos critérios que quiser. Porque eu tampouco tive o objetivo de estar de acordo com o pensamento geral. Bowie é tão camaleônico que cabem variadas interpretações para sua obra, que é infinita. E bela.